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Cadão Volpato

16/01/2017

Como?
Eu não lembro exatamente o ano, mas a primeira coisa que eu vim ver aqui foi o primeiro show da Legião Urbana em São Paulo. Na época o Renato Russo passou um mês na minha casa, quando eu morava com outras duas personalidades do rock and roll. Eu era do rock and roll quando este estava começando em São Paulo. O Russo passou por São Paulo a caminho do Rio, quando ele ainda era um desconhecido. Por conta da Radiotividade [nome pelo qual ficou conhecida a equipe de rádio do CCSP na década de 1980, sob coordenação de Magaly Prado], havia um espaço muito incrível aqui. A gente está falando do rock num tempo em que ele era um desconhecido, no começo dos anos 1980. E a Legião tocou aqui, foi uma apresentação bem impressionante. Isso deve ter sido em 1983, o Centro Cultural só tinha um ano de existência. Depois do show da Legião, eu comecei a frequentar mais o Centro, vi muitos shows aqui. Eu mesmo toquei com o Fellini em várias ocasiões. A última vez foi em abril de 2016. Então, é um lugar pelo qual eu tenho um carinho enorme, porque é um espaço espetacular e, ao mesmo tempo, muito democrático — tão democrático que possibilitou que a Legião, que era uma banda desconhecida formada por três garotos de Brasília, de calças rasgadas e coturnos, pudesse se apresentar. E por ser assim, por ter essa cara tão democrática e acolhedora, é um lugar para o qual eu sempre gostei de voltar pra saber o que estava acontecendo. Fiz isso muitas vezes.

“É bom você saber que tem um lugar como este, né? Você pode vir pra, no mínimo, tomar sol! Olha só que incrível!”

Onde?
É inevitável, eu tenho que falar da Sala Adoniran Barbosa, porque é um espaço em que eu sempre vou sentir um frio na espinha ao entrar. Na semana passada eu entrei na sala só pra ver como ela está e tive a mesma sensação. Ela foi feita, de alguma forma, pra acolher o artista. É uma coisa incrível, aquele formato de arena, você está cercado pelo público — ou mesmo quando você não está cercado, as pessoas estão em cima e, embaixo, elas ficam em meia lua —, você fica quase no nível do chão… Essas coisas são muito interessantes, pra mim sempre têm um efeito. Então, se há um espaço que mexe comigo, é a Adoniran. Mas, como agora estou aqui dentro, tenho descoberto um monte de outros lugares que eu não achava que fossem tão incríveis, principalmente no porão (Piso 23 de Maio). Saber que há muitas coisas incríveis aqui no acervo tem me mobilizado muito.

“É um ponto de São Paulo que é uma espécie de coração, sabe? E eu espero que seja de fato o coração da cidade em termos de cultura”

Por quê?
Pra mim é uma honra de um tamanho incomensurável [assumir a direção geral do CCSP]. Eu não esperava que isso acontecesse na minha vida um dia. Se alguém me perguntasse algo do tipo em 1983, eu ficaria mudo. Isso aqui é uma cidade, é um lugar grandioso e, ao mesmo tempo, tem essa cara tão democrática. Digo isso não só pela forma como ele é usado pela população, mas também pela forma como as coisas acontecem aqui. A gente está cercado de transparências, a gente sai do metrô e dá direto aqui dentro… É um espaço muito querido pela cidade, embora as pessoas não venham tanto como deveriam vir, e o fato de tantas coisas legais acontecerem aqui faz com que a gente queira voltar. A gente sempre sabe que tem alguma coisa acontecendo aqui e que essa coisa vai ser interessante. A minha ideia, depois que eu fui convidado para assumir a direção, é trazer uma personalidade pra cá. E eu não estou me referindo ao passado. A minha personalidade, de alguma forma, está aqui dentro, é um lugar que eu adoro também. É um ponto de São Paulo que é uma espécie de coração, sabe? E eu espero que seja de fato o coração da cidade em termos de cultura, que as pessoas pensem neste lugar como uma referência para querer voltar, como eu ao longo desses 30 anos em que tenho passado por aqui. É bom você saber que tem um lugar como este, né? Você pode vir pra, no mínimo, tomar sol! Olha só que incrível! Que outros espaços públicos em São Paulo oferecem esse tipo de possibilidade? E saber que tem coisas aqui que são inacreditáveis… Na semana passada, por exemplo, eu fui dar uma olhada no acervo e dei de cara com um retrato do Mário de Andrade pintado pelo Flávio de Carvalho. Eu tinha visto esse quadro em algum lugar, mas nunca tinha tido a noção de como é incrível poder olhar pra ele a um palmo de distância. Eu quero que essas coisas sejam vistas por todos, que não fiquem só no acervo, porque são tesouros. São coisas que, se mexem comigo, queria que mexessem com a população também.

Entrevista, transcrição e edição: Vinícius Máximo
Fotografia: Sossô Parma

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